Deixei um comentário no blog da Funverde duas vezes, e por duas vezes ele foi removido. Quer ver eles removerem o comentário daqui.

O post tem o título Lei sancionada em BH proíbe sacolas de plástico. Um post infeliz, que prejudica a imagem de uma instituição que contribui bastante para mudar a nossa cultura tão carente. Contém pérolas tanto do ponto de vista argumentativo quanto de estilo. Segue o meu comentário:

O grande problema do oxi-plastico é que no lixão, embaixo da terra, o oxigênio é escasso. Sem oxigênio, aquilo pode ficar ali por séculos. Além disso, o nome está sendo aproveitado por empresas pilantras que produzem sacolas fora dos padrões internacionais de biodegradação.

http://www.plasticbagfreehebdenbridge.co.uk/content/view/22/42/

http://www.friendlybags.com/article_content.php?artid=102

O oxidegradável só desaparece aos olhos. Aquelas partículas minúsculas ainda são plástico e não são transformadas pelos microorganismos em matéria orgânica.

Seus ataques ad hominem são improdutivos, ninguém vai dar bola pro que está escrito aqui quando vocês usam essa linguagem. É bastante óbvio que as sacolas plásticas oxi-biodegradáveis são muito melhores que as sacolas ridículas que a gente consome hoje. Mas o consenso sobre o impacto ecológico delas já não existe mais (para o deleite dos desinformadores a serviço do Big Oil). Ataquem a desinformação, não toda e qualquer opinião em contrário.

O estudo mais completo feito até então sobre biocombustíveis, que deu parecer favorável à implementação generalizada de programas como o nosso pró-álcool, foi revisto pelos mesmos cientistas nos dois anos seguintes, e estes mesmos cientistas disseram: “ops, esquecemos algo”. Verdadeiros cientistas só falam do que têm certeza e mudam bem felizes de opinião quando novas informações aparecem que os aproximam da verdade.

Justamente a Funverde, que vende sacolas de algodão cru ao lado das sacolas retornáveis plásticas biodegradáveis, deveria ter grande interesse em descobrir falhas e revisões nos estudos sobre o oxidegradável.

Finalmente, não posso deixar de comentar que o momento ainda é de conscientizar. Só temos tempo pra isso. Porque a mudança vai precisar da ação de todos.

Boléro

16/Outubro/2007

O primeiro sinal veio dos jaburus, que aqui são chamados cauauás, logo ao nascer do dia. De longe ouvia-se sua voz, no começo ainda tímida, que dizia que era hora do basta. O canto dos cauauás foi logo acompanhado pelo som dos pica-paus, os amarelos foram os primeiros a cutucar as árvores em ritmo, tararatam, tam, tam, tararatam-tararam-tararam, a estes uniram-se os pica-paus-de-barriga-vermelha no mesmo ritmo, e logo todos os outros, marcando o compasso da floresta.

Por alguns segundos, tudo o que se ouvia era isso, a flauta dos cauauás e o tambor dos pica-paus. Bichos-preguiça erguiam a cabeça, sonolentos aos primeiros minutos da manhã, sagüis punham-se de pé sobre as patas traseiras e trocavam olhares por entre as folhas das copas das árvores. Rapidamente, todos entenderam o que acontecia e começaram a cantar junto. Enquanto cantavam, saltavam de um galho a outro, todos indo na direção de onde os pássaros primeiro tinham cantado.

Ainda faltava muito para que o sol penetrasse pelas copas das árvores, mas as araras e papagaios também já se uniam ao canto de guerra de Ravel. Não é certo que eles tenham conhecido o trabalho do compositor francês, ainda que desde os anos 30 muitos exploradores europeus tenham vindo para cá. É desnecessário dizer porém que a guerra, eles conheciam e muito bem. A paz é um traço marcante dos animais e plantas daqui, durante mais de um século eles calmamente deixaram suas casas antes que nós a derrubássemos, fugiram para as matas mais fechadas, enquanto nós ateávamos fogo nas orlas para fazer pasto. As araras eram as primeiras a fugir. Hoje elas vinham para cima de nós.

Lá embaixo já chegara a notícia. Vez ou outra as antas sopravam seus trombones, na hora certa, e os sapos coaxavam nos meios-tempos, e sobre as águas dos charcos e dos rios podia-se ver as bolhas que denunciavam a indignação silenciosa dos peixes. Estes desfilavam seus variados tipos de armaduras, douradas, prateadas, e pintadas.

Perto da onça, porém, os peixes e os botos não metiam medo. Quando ela apareceu e olhou para nós, eu sabia que não escaparíamos vivos, de nada adiantariam nossas espingardas. Foi rápido: sob pedras, castanhas e frutas que os macaquinhos atiravam, fugimos do trator onde estávamos escondidos, todos ao mesmo tempo, no momento em que vimos a onça. Além dos pássaros escurecendo ainda mais o céu e tapando nossa visão e nosso caminho, morcegos se enroscavam em nossos cabelos, e em dois segundos eu era o único que ainda estava vivo. Me atirei ao chão. E logo veio o silêncio.

Surprise in Green by Andrew NPhotograph: “Surprise in Green” by Andrew N. Some rights reserved.