Die Barbaren

De que nos servem estórias
Sobre pessoas simplórias
Fazendo papel batido
Medíocres, mas com estilo?

Dê-me relatos heróicos
Creio que mesmo entre os trópicos
Há valentia e nobreza
Também amor, com certeza

Que tragam-nos os expertos
Para explicar o mundo
Que venham os criadores
Nos ensinar coisas novas

Que venham os vigaristas
Mostrar quem de fatos somos
Que venham junto os poetas
Cantar conosco o início

La Vita Nuova

Dante's Dream at the Time of the Death of Beatrice

Dante’s Dream at the Time of the Death of Beatrice

Recorda-te do que vivemos,
Tudo que temos vem dentro.
No centro do peito pulsa
Toda beleza da vida

De cor sabes meu sorriso
Preciso da tua memória
Da história de nós ficou
Sombra minha, pranto teu

Faz minha lembrança musa,
Usa a pena com alegria,
Os dias são teus para colher
E cheirar, tocar, beber

Recorda-te com carinho
Mas faz logo teu caminho
De coração leve, sim,
Reencontramo-nos no fim

Funverde censura comentários

Deixei um comentário no blog da Funverde duas vezes, e por duas vezes ele foi removido. Quer ver eles removerem o comentário daqui.

O post tem o título Lei sancionada em BH proíbe sacolas de plástico. Um post infeliz, que prejudica a imagem de uma instituição que contribui bastante para mudar a nossa cultura tão carente. Contém pérolas tanto do ponto de vista argumentativo quanto de estilo. Segue o meu comentário:

O grande problema do oxi-plastico é que no lixão, embaixo da terra, o oxigênio é escasso. Sem oxigênio, aquilo pode ficar ali por séculos. Além disso, o nome está sendo aproveitado por empresas pilantras que produzem sacolas fora dos padrões internacionais de biodegradação.

http://www.plasticbagfreehebdenbridge.co.uk/content/view/22/42/

http://www.friendlybags.com/article_content.php?artid=102

O oxidegradável só desaparece aos olhos. Aquelas partículas minúsculas ainda são plástico e não são transformadas pelos microorganismos em matéria orgânica.

Seus ataques ad hominem são improdutivos, ninguém vai dar bola pro que está escrito aqui quando vocês usam essa linguagem. É bastante óbvio que as sacolas plásticas oxi-biodegradáveis são muito melhores que as sacolas ridículas que a gente consome hoje. Mas o consenso sobre o impacto ecológico delas já não existe mais (para o deleite dos desinformadores a serviço do Big Oil). Ataquem a desinformação, não toda e qualquer opinião em contrário.

O estudo mais completo feito até então sobre biocombustíveis, que deu parecer favorável à implementação generalizada de programas como o nosso pró-álcool, foi revisto pelos mesmos cientistas nos dois anos seguintes, e estes mesmos cientistas disseram: “ops, esquecemos algo”. Verdadeiros cientistas só falam do que têm certeza e mudam bem felizes de opinião quando novas informações aparecem que os aproximam da verdade.

Justamente a Funverde, que vende sacolas de algodão cru ao lado das sacolas retornáveis plásticas biodegradáveis, deveria ter grande interesse em descobrir falhas e revisões nos estudos sobre o oxidegradável.

Finalmente, não posso deixar de comentar que o momento ainda é de conscientizar. Só temos tempo pra isso. Porque a mudança vai precisar da ação de todos.

Boléro

O primeiro sinal veio dos jaburus, que aqui são chamados cauauás, logo ao nascer do dia. De longe ouvia-se sua voz, no começo ainda tímida, que dizia que era hora do basta. O canto dos cauauás foi logo acompanhado pelo som dos pica-paus, os amarelos foram os primeiros a cutucar as árvores em ritmo, tararatam, tam, tam, tararatam-tararam-tararam, a estes uniram-se os pica-paus-de-barriga-vermelha no mesmo ritmo, e logo todos os outros, marcando o compasso da floresta.

Por alguns segundos, tudo o que se ouvia era isso, a flauta dos cauauás e o tambor dos pica-paus. Bichos-preguiça erguiam a cabeça, sonolentos aos primeiros minutos da manhã, sagüis punham-se de pé sobre as patas traseiras e trocavam olhares por entre as folhas das copas das árvores. Rapidamente, todos entenderam o que acontecia e começaram a cantar junto. Enquanto cantavam, saltavam de um galho a outro, todos indo na direção de onde os pássaros primeiro tinham cantado.

Ainda faltava muito para que o sol penetrasse pelas copas das árvores, mas as araras e papagaios também já se uniam ao canto de guerra de Ravel. Não é certo que eles tenham conhecido o trabalho do compositor francês, ainda que desde os anos 30 muitos exploradores europeus tenham vindo para cá. É desnecessário dizer porém que a guerra, eles conheciam e muito bem. A paz é um traço marcante dos animais e plantas daqui, durante mais de um século eles calmamente deixaram suas casas antes que nós a derrubássemos, fugiram para as matas mais fechadas, enquanto nós ateávamos fogo nas orlas para fazer pasto. As araras eram as primeiras a fugir. Hoje elas vinham para cima de nós.

Lá embaixo já chegara a notícia. Vez ou outra as antas sopravam seus trombones, na hora certa, e os sapos coaxavam nos meios-tempos, e sobre as águas dos charcos e dos rios podia-se ver as bolhas que denunciavam a indignação silenciosa dos peixes. Estes desfilavam seus variados tipos de armaduras, douradas, prateadas, e pintadas.

Perto da onça, porém, os peixes e os botos não metiam medo. Quando ela apareceu e olhou para nós, eu sabia que não escaparíamos vivos, de nada adiantariam nossas espingardas. Foi rápido: sob pedras, castanhas e frutas que os macaquinhos atiravam, fugimos do trator onde estávamos escondidos, todos ao mesmo tempo, no momento em que vimos a onça. Além dos pássaros escurecendo ainda mais o céu e tapando nossa visão e nosso caminho, morcegos se enroscavam em nossos cabelos, e em dois segundos eu era o único que ainda estava vivo. Me atirei ao chão. E logo veio o silêncio.

Surprise in Green by Andrew NPhotograph: “Surprise in Green” by Andrew N. Some rights reserved.

Severino no século vinte e dois

Antigamente era a televisão, depois veio a Internet, e todo mundo sempre achava que o mundo ia mudar completamente. O tempo passou, o mundo mudou só um pouquinho, e algumas coisas não mudaram nada. Eis um exemplo.

O astronauta Severino Dias estava de volta ao Brasil depois de cinco anos e meio na Santa Maria, a estação espacial brasileira que orbita a terra. Tinha completado 50 anos durante a viagem, e os cabelos brancos começavam a deixar suas costeletas num tom prateado. Mas ele sentia-se bastante bem: a missão tinha sido tranquila e ele agora teria três meses de férias.

A primeira providência a ser tomada, antes mesmo de ir para São Paulo, era comer uma feijoada. Em São Luís, feijoada que presta só mesmo no “Odair’s”. Lá seria possível satisfazer seu estômago, cansado das comidas afrancesadas da Estação. Do trem que o levava da base aérea à cidade, mandou uma mensagem de texto pra Cidinha. Sabia que ela detestava mensagens de texto e tinha tido várias discussões sobre o assunto.

- Eu nunca consigo ler essas malditas, Sessú! – Mas é só um botão, minha flor! – Num gosto e pronto. – Você me chama de Sessú na frente dos meus amigos e eu odeio. E você sabe e continua. Então, continuo com as minhas mensagens de texto. – Aaaai, menino!

Ele mandou uma mensagem assim:

Cheguei. De noite, to em Sampa. Te amo, Sessu.

A resposta veio um minuto depois:

nao! vem pra poa, to na casa da vivi.

Ele achou esquisito, mas comprou uma passagem para Porto Alegre assim mesmo. Comentou com o Edu, seu grande amigo e também astronauta, durante o almoço.

- Cidinha em Porto Alegre, no inverno? Muito estranho mesmo. Será que em cinco anos mudou alguma coisa entre vocês? Passa a farofa… – Sei não. Hmmm – disse ele elevando a voz -, tá bom demais, Seu Odair! O feijão é seu, é? Da sua Horta? Edu, ela mandou e-mail na semana passada, tava tudo normal. – Sei lá, ela já tá com 39, a mulherada nessa idade fica doida pra casar… – Falando nisso, vou pedir a Cidinha em casamento. – Opa! Mas já? Pô, legal, parabéns! Já tá com a vida feita, hein? Cansou de ser solteiro… vou perder meu companheiro de festa!

Algumas horas depois, a Cidinha também estranhou o assunto.

- Casar, Sessú, já? Mas eu nem terminei minha segunda faculdade! Que é que você quer, que eu seja dona de casa? – Mas… – Sessú, faça-me o favor. Minha mãe só teve uma carreira na vida, de engenheira química. Mas eram outros tempos, você sabe. – É que eu… – Além do mais, quantos filhos você quer ter? Pq eu quero um casal, e um casal demora pra criar. Dá trabalho, Sessú! – Eu só… – Mas é óbvio que eu quero casar com você! Eu te amo!

Havia obviamente um motivo pra Severino mandar mensagens de texto pra Cidinha. Mas casaram-se, no começo do ano seguinte, dia 22 de fevereiro. A vida a dois era muito boa e ele raramente ia ao espaço por mais de 4 meses. Eles nunca brigavam, o que não quer dizer que eles não tinham nada para discutir.

- Cê tá ficando careca, Sessú! Olha aqui a escova. Tomou seus nana… coisas? – Nanoreguladores. Tomei. Faz 15 anos que eu tomo robozinhos, nunca perdi a data. – Se você esquecer de tomar seus robozinhos, eu que não vou ficar catando cabelo.

Num sábado, teve feijoada na casa do Mário, e o Severino comentou com o Edu:

- Bem que meu pai dizia, Edu, que ao mulheres casam pra mudar a gente, e a gente quer que elas não mudem nunca. De uns tempos pra cá, deu pra brigar comigo à toa e falar que vai embora, morar em Paris ou em Marte. – Você comeu todo o torresmo, vou pegar mais. É que nessa idade, Severino, mulher só pensa em ter filho. – Falando nisso – passa a pimenta? Falando nisso, Cidinha tá finalmente grávida. – Opa, Mas já? Pô, parabéns… – Obrigado. E você, Edu, não vai casar, ter filhos, e tal? – Quem tem holograma tem tudo, meu amigo. Me encheu o saco, eu desligo.

Samuelson nasceu no começo de outubro, e o pai orgulhoso, levou uma foto dele para a próxima viagem à Europa. Entenda-se, a lua de Júpiter. Um ano e meio depois, encontrou Edu de novo no Odair’s. OS dois comeram outra feijoada, claro.

- E a família, Severino, vai bem? – Calma que enquanto não tiver feijão em cima desse arroz eu sou um macaco astronauta.

Severino derramava lentamente todo o caldo por cima do arroz e da farofa.

- Então, pelo menos ela parou de falar que arruma outro e vai pra Marte. Mas acho que é porque a mãe dela tá lá em casa. – Nossa! Quantos anos tem a sogrinha? Vai mais couve? – Brigado. Cento e quinze, ou cento e doze, algo assim. Mal anda, a coitada. Mas a língua ainda funciona. – Caramba, Seu Odair, que espetáculo! E agora, você vai ter uma menina? – Vou. Mas a cidinha não quer selecionar, quer que venha “de cima”. Eu vou é tomar uma pílula dessas sem ela saber. – Mudando de assunto, tô com uma série nova de hologramas em casa: 1950-2050. Fantástica, tem até a Letícia Spiller!

Os moinhos de vento

O fato de ser professor aposentado nunca eximiu Armínio de suas funções de educador. Sobretudo por ser professor de Português, esta língua que é tão maltratada por todo mundo, alguns ocasionalmente, outros por profissão. Como Quixote enfrenta o Professor Armínio os invencíveis moinhos de vento dos modismos, das frases de efeito, dos anglicismos e das expressões mal traduzidas, das metáforas vazias, dos verbos sem significado.

Não falo aqui da clássica correção sintática que tornou-se o símbolo da minha geração: o “pra mim fazer”. O Professor Armínio jamais corrige as pessoas com aquela voz suave, que quer transmitir paciência e compreensão, contando até dez mas sem perder o respeito: “para EU fazer, né, Dona Margarida?” Esse problema é endêmico, é como infração de trânsito, todo mundo sabe que é errado mas acaba fazendo e, na maioria das vezes, ninguém morre.

O Professor gosta muito de ler. Gosta tanto que lê até jornal, o que na sua idade não faz bem nem para o coração nem para os amigos. Ele repete em voz alta o texto que não diz nada e atira o jornal ao chão, bufando. E Armínio escreve cartas aos redatores, pedindo-lhes a decência de dizer realmente o que pretendem em palavras do dia-a-dia, de verdadeiro valor semântico. Recebi dele ontem uma frase assim: “Pela discussão até o presente momento, não é possível dizer se o deputado é ou não é a bola da vez, pois na Câmara o que vemos é a dança das cadeiras, enquanto eles riem o povo é que chora.” A frase vinha acompanhada de duros comentários, mas o que se pode esperar? Política e jornalismo funcionam assim, não se diz nada que seja comprometedor, exceto a obviedade do povo chorando.

É de se perguntar se a pessoa que escreveu isso realmente pensava enquanto escrevia, provavelmente não. “A linguagem apodrece, pois não se pensa mais ao escrever,” diz ele. “O pior é que escrever deste jeito também convida a dizer as coisas sem pensar. É mais fácil deixar fluir as frases prontas em vez de raciocinar realmente. Quem escreve desta forma não precisa nem saber o que quer dizer, pode começar a escrever sem ter realmente algo a dizer.”

Os moinhos de vento são invencíveis porque eles não compram a briga com nosso cavaleiro de indignada figura. Ninguém discute a baixa qualidade dos textos, e há até condescendência com os jornalistas. Coitados, precisam ter o que escrever todo dia. O Professor não acha que o retorno da palmatória ajudaria em alguma coisa. Ele acredita que o fenômeno é reversível. Se tivermos realmente algo a dizer, as expressões vagas e metáforas vazias não servirão. Teremos de escolher as palavras com cuidado, tomará tempo, e sairá caro, mas estaremos libertando o mundo da má-fé e da manipulação.

Não há dificuldade de explicar a manipulação comum, feita através da escolha das palavras. Quase todo mundo já viu algum exemplo: escrevem “baderneiros invadem a Secretaria de Comércio de São Paulo” quando eles querem colocar a secretaria como inocente, mas “comerciantes insatisfeitos com a proibição de suas atividades ocupam a Secretaria de Comércio de São Paulo” quando estão do lado dos comerciantes. Mas o mal maior é mais sutil.

O mal maior é não dizer nada, como dizer que não se sabe se o deputado é a bola da vez. O Professor Armínio mostrou-me que não há como reduzir aquela frase lá em cima a um discurso com sentido: sabe-se que há uma discussão, o que é redundante dizer se estamos falando do editorial de um jornal, e a metáfora da dança das cadeiras pode significar várias coisas. Será que eles estão todos tentando se safar, e algum deles ficará sem cadeira para sentar? Será que, ao contrário, eles estão é fazendo de conta que nada acontece, e em algum momento todos correrão para… para algum lugar? A única certeza que se tem é que esta pessoa não sabe o que diz. Escolheu uma linguagem que esconde seus pensamentos até de si mesma. Depois de ler isso, aposto que todo cidadão alfabetizado concorda que o povo chora.

Van Gogh

É no avançar da madrugada que observo,
Meu quarto parece o quarto do Van Gogh.
A cama desfeita, a cadeira malposta,
Um prato e um copo do último jantar.

Vicent’s room in Arles

A janela escura oculta um outro prédio
Esta talvez a marcante diferença
Pois minha janela está sempre fechada
E a dele, entreaberta, oculta os pastos

Aqui não tem os meus quadros pendurados,
Mas o espelho mostra meu auto-retrato.
Se num impulso eu fugisse para a África,
Não chegaria a passar da portaria.

Fico na cidade, vou seguindo assim,
Na mesmice do dia-a-dia estou seguro
No avançar da madrugada é que observo
Que meu coração parece o do Van Gogh.