Boléro

16/Outubro/2007

O primeiro sinal veio dos jaburus, que aqui são chamados cauauás, logo ao nascer do dia. De longe ouvia-se sua voz, no começo ainda tímida, que dizia que era hora do basta. O canto dos cauauás foi logo acompanhado pelo som dos pica-paus, os amarelos foram os primeiros a cutucar as árvores em ritmo, tararatam, tam, tam, tararatam-tararam-tararam, a estes uniram-se os pica-paus-de-barriga-vermelha no mesmo ritmo, e logo todos os outros, marcando o compasso da floresta.

Por alguns segundos, tudo o que se ouvia era isso, a flauta dos cauauás e o tambor dos pica-paus. Bichos-preguiça erguiam a cabeça, sonolentos aos primeiros minutos da manhã, sagüis punham-se de pé sobre as patas traseiras e trocavam olhares por entre as folhas das copas das árvores. Rapidamente, todos entenderam o que acontecia e começaram a cantar junto. Enquanto cantavam, saltavam de um galho a outro, todos indo na direção de onde os pássaros primeiro tinham cantado.

Ainda faltava muito para que o sol penetrasse pelas copas das árvores, mas as araras e papagaios também já se uniam ao canto de guerra de Ravel. Não é certo que eles tenham conhecido o trabalho do compositor francês, ainda que desde os anos 30 muitos exploradores europeus tenham vindo para cá. É desnecessário dizer porém que a guerra, eles conheciam e muito bem. A paz é um traço marcante dos animais e plantas daqui, durante mais de um século eles calmamente deixaram suas casas antes que nós a derrubássemos, fugiram para as matas mais fechadas, enquanto nós ateávamos fogo nas orlas para fazer pasto. As araras eram as primeiras a fugir. Hoje elas vinham para cima de nós.

Lá embaixo já chegara a notícia. Vez ou outra as antas sopravam seus trombones, na hora certa, e os sapos coaxavam nos meios-tempos, e sobre as águas dos charcos e dos rios podia-se ver as bolhas que denunciavam a indignação silenciosa dos peixes. Estes desfilavam seus variados tipos de armaduras, douradas, prateadas, e pintadas.

Perto da onça, porém, os peixes e os botos não metiam medo. Quando ela apareceu e olhou para nós, eu sabia que não escaparíamos vivos, de nada adiantariam nossas espingardas. Foi rápido: sob pedras, castanhas e frutas que os macaquinhos atiravam, fugimos do trator onde estávamos escondidos, todos ao mesmo tempo, no momento em que vimos a onça. Além dos pássaros escurecendo ainda mais o céu e tapando nossa visão e nosso caminho, morcegos se enroscavam em nossos cabelos, e em dois segundos eu era o único que ainda estava vivo. Me atirei ao chão. E logo veio o silêncio.

Surprise in Green by Andrew NPhotograph: “Surprise in Green” by Andrew N. Some rights reserved.

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