Antigamente era a televisão, depois veio a Internet, e todo mundo sempre achava que o mundo ia mudar completamente. O tempo passou, o mundo mudou só um pouquinho, e algumas coisas não mudaram nada. Eis um exemplo.

O astronauta Severino Dias estava de volta ao Brasil depois de cinco anos e meio na Santa Maria, a estação espacial brasileira que orbita a terra. Tinha completado 50 anos durante a viagem, e os cabelos brancos começavam a deixar suas costeletas num tom prateado. Mas ele sentia-se bastante bem: a missão tinha sido tranquila e ele agora teria três meses de férias.

A primeira providência a ser tomada, antes mesmo de ir para São Paulo, era comer uma feijoada. Em São Luís, feijoada que presta só mesmo no “Odair’s”. Lá seria possível satisfazer seu estômago, cansado das comidas afrancesadas da Estação. Do trem que o levava da base aérea à cidade, mandou uma mensagem de texto pra Cidinha. Sabia que ela detestava mensagens de texto e tinha tido várias discussões sobre o assunto.

- Eu nunca consigo ler essas malditas, Sessú! – Mas é só um botão, minha flor! – Num gosto e pronto. – Você me chama de Sessú na frente dos meus amigos e eu odeio. E você sabe e continua. Então, continuo com as minhas mensagens de texto. – Aaaai, menino!

Ele mandou uma mensagem assim:

Cheguei. De noite, to em Sampa. Te amo, Sessu.

A resposta veio um minuto depois:

nao! vem pra poa, to na casa da vivi.

Ele achou esquisito, mas comprou uma passagem para Porto Alegre assim mesmo. Comentou com o Edu, seu grande amigo e também astronauta, durante o almoço.

- Cidinha em Porto Alegre, no inverno? Muito estranho mesmo. Será que em cinco anos mudou alguma coisa entre vocês? Passa a farofa… – Sei não. Hmmm – disse ele elevando a voz -, tá bom demais, Seu Odair! O feijão é seu, é? Da sua Horta? Edu, ela mandou e-mail na semana passada, tava tudo normal. – Sei lá, ela já tá com 39, a mulherada nessa idade fica doida pra casar… – Falando nisso, vou pedir a Cidinha em casamento. – Opa! Mas já? Pô, legal, parabéns! Já tá com a vida feita, hein? Cansou de ser solteiro… vou perder meu companheiro de festa!

Algumas horas depois, a Cidinha também estranhou o assunto.

- Casar, Sessú, já? Mas eu nem terminei minha segunda faculdade! Que é que você quer, que eu seja dona de casa? – Mas… – Sessú, faça-me o favor. Minha mãe só teve uma carreira na vida, de engenheira química. Mas eram outros tempos, você sabe. – É que eu… – Além do mais, quantos filhos você quer ter? Pq eu quero um casal, e um casal demora pra criar. Dá trabalho, Sessú! – Eu só… – Mas é óbvio que eu quero casar com você! Eu te amo!

Havia obviamente um motivo pra Severino mandar mensagens de texto pra Cidinha. Mas casaram-se, no começo do ano seguinte, dia 22 de fevereiro. A vida a dois era muito boa e ele raramente ia ao espaço por mais de 4 meses. Eles nunca brigavam, o que não quer dizer que eles não tinham nada para discutir.

- Cê tá ficando careca, Sessú! Olha aqui a escova. Tomou seus nana… coisas? – Nanoreguladores. Tomei. Faz 15 anos que eu tomo robozinhos, nunca perdi a data. – Se você esquecer de tomar seus robozinhos, eu que não vou ficar catando cabelo.

Num sábado, teve feijoada na casa do Mário, e o Severino comentou com o Edu:

- Bem que meu pai dizia, Edu, que ao mulheres casam pra mudar a gente, e a gente quer que elas não mudem nunca. De uns tempos pra cá, deu pra brigar comigo à toa e falar que vai embora, morar em Paris ou em Marte. – Você comeu todo o torresmo, vou pegar mais. É que nessa idade, Severino, mulher só pensa em ter filho. – Falando nisso – passa a pimenta? Falando nisso, Cidinha tá finalmente grávida. – Opa, Mas já? Pô, parabéns… – Obrigado. E você, Edu, não vai casar, ter filhos, e tal? – Quem tem holograma tem tudo, meu amigo. Me encheu o saco, eu desligo.

Samuelson nasceu no começo de outubro, e o pai orgulhoso, levou uma foto dele para a próxima viagem à Europa. Entenda-se, a lua de Júpiter. Um ano e meio depois, encontrou Edu de novo no Odair’s. OS dois comeram outra feijoada, claro.

- E a família, Severino, vai bem? – Calma que enquanto não tiver feijão em cima desse arroz eu sou um macaco astronauta.

Severino derramava lentamente todo o caldo por cima do arroz e da farofa.

- Então, pelo menos ela parou de falar que arruma outro e vai pra Marte. Mas acho que é porque a mãe dela tá lá em casa. – Nossa! Quantos anos tem a sogrinha? Vai mais couve? – Brigado. Cento e quinze, ou cento e doze, algo assim. Mal anda, a coitada. Mas a língua ainda funciona. – Caramba, Seu Odair, que espetáculo! E agora, você vai ter uma menina? – Vou. Mas a cidinha não quer selecionar, quer que venha “de cima”. Eu vou é tomar uma pílula dessas sem ela saber. – Mudando de assunto, tô com uma série nova de hologramas em casa: 1950-2050. Fantástica, tem até a Letícia Spiller!

Os moinhos de vento

30/Agosto/2007

O fato de ser professor aposentado nunca eximiu Armínio de suas funções de educador. Sobretudo por ser professor de Português, esta língua que é tão maltratada por todo mundo, alguns ocasionalmente, outros por profissão. Como Quixote enfrenta o Professor Armínio os invencíveis moinhos de vento dos modismos, das frases de efeito, dos anglicismos e das expressões mal traduzidas, das metáforas vazias, dos verbos sem significado.

Não falo aqui da clássica correção sintática que tornou-se o símbolo da minha geração: o “pra mim fazer”. O Professor Armínio jamais corrige as pessoas com aquela voz suave, que quer transmitir paciência e compreensão, contando até dez mas sem perder o respeito: “para EU fazer, né, Dona Margarida?” Esse problema é endêmico, é como infração de trânsito, todo mundo sabe que é errado mas acaba fazendo e, na maioria das vezes, ninguém morre.

O Professor gosta muito de ler. Gosta tanto que lê até jornal, o que na sua idade não faz bem nem para o coração nem para os amigos. Ele repete em voz alta o texto que não diz nada e atira o jornal ao chão, bufando. E Armínio escreve cartas aos redatores, pedindo-lhes a decência de dizer realmente o que pretendem em palavras do dia-a-dia, de verdadeiro valor semântico. Recebi dele ontem uma frase assim: “Pela discussão até o presente momento, não é possível dizer se o deputado é ou não é a bola da vez, pois na Câmara o que vemos é a dança das cadeiras, enquanto eles riem o povo é que chora.” A frase vinha acompanhada de duros comentários, mas o que se pode esperar? Política e jornalismo funcionam assim, não se diz nada que seja comprometedor, exceto a obviedade do povo chorando.

É de se perguntar se a pessoa que escreveu isso realmente pensava enquanto escrevia, provavelmente não. “A linguagem apodrece, pois não se pensa mais ao escrever,” diz ele. “O pior é que escrever deste jeito também convida a dizer as coisas sem pensar. É mais fácil deixar fluir as frases prontas em vez de raciocinar realmente. Quem escreve desta forma não precisa nem saber o que quer dizer, pode começar a escrever sem ter realmente algo a dizer.”

Os moinhos de vento são invencíveis porque eles não compram a briga com nosso cavaleiro de indignada figura. Ninguém discute a baixa qualidade dos textos, e há até condescendência com os jornalistas. Coitados, precisam ter o que escrever todo dia. O Professor não acha que o retorno da palmatória ajudaria em alguma coisa. Ele acredita que o fenômeno é reversível. Se tivermos realmente algo a dizer, as expressões vagas e metáforas vazias não servirão. Teremos de escolher as palavras com cuidado, tomará tempo, e sairá caro, mas estaremos libertando o mundo da má-fé e da manipulação.

Não há dificuldade de explicar a manipulação comum, feita através da escolha das palavras. Quase todo mundo já viu algum exemplo: escrevem “baderneiros invadem a Secretaria de Comércio de São Paulo” quando eles querem colocar a secretaria como inocente, mas “comerciantes insatisfeitos com a proibição de suas atividades ocupam a Secretaria de Comércio de São Paulo” quando estão do lado dos comerciantes. Mas o mal maior é mais sutil.

O mal maior é não dizer nada, como dizer que não se sabe se o deputado é a bola da vez. O Professor Armínio mostrou-me que não há como reduzir aquela frase lá em cima a um discurso com sentido: sabe-se que há uma discussão, o que é redundante dizer se estamos falando do editorial de um jornal, e a metáfora da dança das cadeiras pode significar várias coisas. Será que eles estão todos tentando se safar, e algum deles ficará sem cadeira para sentar? Será que, ao contrário, eles estão é fazendo de conta que nada acontece, e em algum momento todos correrão para… para algum lugar? A única certeza que se tem é que esta pessoa não sabe o que diz. Escolheu uma linguagem que esconde seus pensamentos até de si mesma. Depois de ler isso, aposto que todo cidadão alfabetizado concorda que o povo chora.