Os moinhos de vento

30/Agosto/2007

O fato de ser professor aposentado nunca eximiu Armínio de suas funções de educador. Sobretudo por ser professor de Português, esta língua que é tão maltratada por todo mundo, alguns ocasionalmente, outros por profissão. Como Quixote enfrenta o Professor Armínio os invencíveis moinhos de vento dos modismos, das frases de efeito, dos anglicismos e das expressões mal traduzidas, das metáforas vazias, dos verbos sem significado.

Não falo aqui da clássica correção sintática que tornou-se o símbolo da minha geração: o “pra mim fazer”. O Professor Armínio jamais corrige as pessoas com aquela voz suave, que quer transmitir paciência e compreensão, contando até dez mas sem perder o respeito: “para EU fazer, né, Dona Margarida?” Esse problema é endêmico, é como infração de trânsito, todo mundo sabe que é errado mas acaba fazendo e, na maioria das vezes, ninguém morre.

O Professor gosta muito de ler. Gosta tanto que lê até jornal, o que na sua idade não faz bem nem para o coração nem para os amigos. Ele repete em voz alta o texto que não diz nada e atira o jornal ao chão, bufando. E Armínio escreve cartas aos redatores, pedindo-lhes a decência de dizer realmente o que pretendem em palavras do dia-a-dia, de verdadeiro valor semântico. Recebi dele ontem uma frase assim: “Pela discussão até o presente momento, não é possível dizer se o deputado é ou não é a bola da vez, pois na Câmara o que vemos é a dança das cadeiras, enquanto eles riem o povo é que chora.” A frase vinha acompanhada de duros comentários, mas o que se pode esperar? Política e jornalismo funcionam assim, não se diz nada que seja comprometedor, exceto a obviedade do povo chorando.

É de se perguntar se a pessoa que escreveu isso realmente pensava enquanto escrevia, provavelmente não. “A linguagem apodrece, pois não se pensa mais ao escrever,” diz ele. “O pior é que escrever deste jeito também convida a dizer as coisas sem pensar. É mais fácil deixar fluir as frases prontas em vez de raciocinar realmente. Quem escreve desta forma não precisa nem saber o que quer dizer, pode começar a escrever sem ter realmente algo a dizer.”

Os moinhos de vento são invencíveis porque eles não compram a briga com nosso cavaleiro de indignada figura. Ninguém discute a baixa qualidade dos textos, e há até condescendência com os jornalistas. Coitados, precisam ter o que escrever todo dia. O Professor não acha que o retorno da palmatória ajudaria em alguma coisa. Ele acredita que o fenômeno é reversível. Se tivermos realmente algo a dizer, as expressões vagas e metáforas vazias não servirão. Teremos de escolher as palavras com cuidado, tomará tempo, e sairá caro, mas estaremos libertando o mundo da má-fé e da manipulação.

Não há dificuldade de explicar a manipulação comum, feita através da escolha das palavras. Quase todo mundo já viu algum exemplo: escrevem “baderneiros invadem a Secretaria de Comércio de São Paulo” quando eles querem colocar a secretaria como inocente, mas “comerciantes insatisfeitos com a proibição de suas atividades ocupam a Secretaria de Comércio de São Paulo” quando estão do lado dos comerciantes. Mas o mal maior é mais sutil.

O mal maior é não dizer nada, como dizer que não se sabe se o deputado é a bola da vez. O Professor Armínio mostrou-me que não há como reduzir aquela frase lá em cima a um discurso com sentido: sabe-se que há uma discussão, o que é redundante dizer se estamos falando do editorial de um jornal, e a metáfora da dança das cadeiras pode significar várias coisas. Será que eles estão todos tentando se safar, e algum deles ficará sem cadeira para sentar? Será que, ao contrário, eles estão é fazendo de conta que nada acontece, e em algum momento todos correrão para… para algum lugar? A única certeza que se tem é que esta pessoa não sabe o que diz. Escolheu uma linguagem que esconde seus pensamentos até de si mesma. Depois de ler isso, aposto que todo cidadão alfabetizado concorda que o povo chora.